Walber Farias: Você diz que não definição a poesia que faz. Sendo assim, o que credita que escreve?
Cinen de Sousa: Houve um tempo em que os jovens poetas da minha cidade escreviam/pinchavam os muros, (naquela época já havia proibições...) com lindas frases românticas às suas musas, entre umas e outras de efeito político. E vislumbrava com aquilo, achava que fazia efeito imediato nas pessoas... A reação que aqueles textos provocavam. Na verdade, ali se desencadeava uma manifestação poética, muito embora não se tivesse a exata noção do fato.
Hoje trabalhando com editoração, percebo a dificuldade que é publicar um livro. Se a poesia tivesse mais espaços... Acho muito legal as atitudes/inventivas do poeta Chacal, os “Varais de Poesia” por exemplo, que ele faz, na praia, no calçadão... São coisa que dão movimento ao texto; o fazer mexer com as pessoas. Acho válido, muito louvável.
Walber Farias: O que considera fundamental para seu processo criativo?
Cinen de Sousa: A originalidade e a síntese, mescladas a uma dose sutil de bom humor. A propósito, citaria um trecho da apresentação do professor Cassiano Nunes no livro “Pássaros de Vidro”, onde ele diz: A Poesia fundamentalmente busca a capitação do essencial, do mais íntimo, e, por conseguinte, elimina tudo que é prosa, mero descritivo, o anedótico, o didático, o político... A Poesia é uma linguagem tênue, porventura etérea. Abstrai, sintetiza, dissolve impurezas, o áspero biográfico. Retém apenas o medular dos sentimentos, o cerne mais profundo das paixões. Rejeita o meramente confessional, que lhe parece indiscreto, importuno. Poesia é ultra-síntese. Mais do que isto: poesia é elipse. Com muita razão dizia Verlaine que reduzia Poesia à música, à vaga música, que “todo o resto é literatura”. Talvez até boa literatura, mas não poesia.
Walber Farias: Você é amigo do poeta/repentista Amargedom, e também agitador cultural de Brasília. Por que não participa dos eventos do qual ele organiza?
Cinen de Sousa: O Amargedom é uma grande figura. Todo dia aparece com uma idéia nova. Tem muita vontade de ficar rico, se dar bem na vida... Somos amigos de trabalho! Sou grande incentivador dele. Recomendo/sugiro sempre a usar o nome verdadeiro: Gustavo Dourado. Em 91 fui responsável pelo projeto gráfico do livro “Linguátomo”. Por sinal; um elogiável projeto e um livro recomendável. Com relação aos eventos que ele promove; pra falar a verdade eu até que participo, bem modestamente. Em particular, evito os recitais... Pelo fato da timidez e principalmente por não saber recitar. “Recitar é uma Arte”. Recitais me lembram os amigos e poetas Carlos Taveira, Menezes y Moraes e Cassiano Nunes, estes sim; são verdadeiros craques na Arte de Recitar. Certa vez na Livraria Presença, aquela da frente do Hospital de Base, numa noite de autógrafos dos muitos que lá aconteciam, subi ao palco para ler um poema meu e nada sóbrio, falei meio hora do “Poema Sujo” de Ferreira Gullar. Quem me conhece sabe bem o quanto sofro do pânico de público.
Walber Farias: Como você ver a nova geração de escritores/poetas, em especial os editados em Brasília?
Cinen de Sousa: Já fui mais exigente! Hoje é quase uma necessidade que tenho de acompanhar o que estamos publicando. Há muita gente boa... Mas, seria pretensão apontar algum caminho. Tenho observado que a galera vem fazendo/escrevendo com mais liberdade. Fugindo de algumas variantes de estilos, métricas, rimas e etc. A moçada jovem está mais solta. Creio que o resultado disto é que venha ser a grande surpresa.
Nicolas Beher, TT Catalão, Luis Turiba e outros, poetas de versos livres e bem humorados. Acredito que humor e jeito despojado na poesia recente, é que é o grande barato, a novidade.
Walber Farias: Finalizando ao que chamo não de entrevista, mas sim; um agradável bate-papo, Cinen de Sousa, fique avontade e nos diga o que pensa fazer e ainda não fez como cidadão e poeta?
Cinen de Sousa: Pretendo continuar estudando pra não ser médico, nem maquinista de trem... (Risos!) Repetir as coisas me dar medo. Se pudesse fazer algo parecido com os aguapés; que ao mesmo tempo em que despolui, embelezam os rios... Ah, isto sim, tenho certeza faria de mim um ser humano melhor. Mas fazer o que?!
Tenho fascínio pelos trabalhos manuais. Hoje sou um artesão com os dias contados. O computador está vindo como um facilitador, um aliado... Certamente em breve, algo irá mudar a minha rotina. Recentemente fiquei muitíssimo impressionado com um documentário sobre Artur Bispo do Rosário, - sua obra: Suas múltiplas possibilidades estética, possíveis de discussão e avaliação, e principalmente, sua contribuição para a arte brasileira de vanguarda. Em seguida, a melhor parte; onde reciclava e reedificava com minúcia e riqueza de detalhes os objetos; materiais descartados, encostados, inservíveis. Na verdade limpava o mundo, sem dúvida uma atitude/processo elogógico.
Outro dia estava eu de visita a cidade de Pirenopólis/GO, assistia na TV/local, um programa que apresentava um cara fazendo violas numa pequena oficina dessas nos fundo de casa. Fiquei deverasmente boquiaberto! Ah, valeu a visita àquela cidade... Como sempre, a velha e fascinante idéia de liberdade... Sou casado com Oneide Ferreira, uma artesã e professora de pinturas.
Apesar de não ter nenhum conhecimento técnico, tenho maior gosto pelas Artes Plásticas. As cores, telas, pincéis, todo me encanta.
Se me fosse dado escolher e tivesse talento, certamente seria um artista plástico. E adotaria a mesma proposta do universo de Bispo do Rosário.
-----------------
Bate papo realizado em abril de 91, publicado na 2ª edição do jornal “O Gato”, Ano II, Brasília/DF. Mantida a reprodução do original.